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Terapia Bonding - Comece pelo início.

September 24, 2018

A Scream Away from Happiness. New York: Grosset & Dunlap, 1972 de Daniel Casriel.

 

Quem nunca ouviu falar? Para muitos mais um livro "maçudo", mas a verdade é que não passa de uma fonte de riqueza, uma fonte de estudo sobre as humanidade, que ao dia de hoje permitiu enormes avanços na forma como é tratada a saúde mental, não só em Portugal, mas no Mundo inteiro.

 

 

 

 

Neste livro, Casriel apresenta a terapia Bonding, ainda de forma não definitiva e com a previsão de que esta iria evoluir ao longo dos tempos. E acertou.

 

O capítulo I parece que resume o livro todo. E por isso, considero uma boa primeira leitura para aqueles que pretendem aprofundar os seus conhecimentos sobre esta psicoterapia e melhorarem as tuas técnicas terapêuticas no tratamento dos seus doentes.

 

Susana Celestino, uma das melhores psicoterapeutas que conheço escreve sobre este primeiro capítulo melhor que ninguém:

 

 

Este livro é sobre um género de terapia de grupo que utiliza o grito como instrumento de forma a ajudar os pacientes a expressarem emoções já há muito tempo “enterradas”.

 

É também um livro sobre pessoas, não só as que escolhem um processo de terapia de grupo porque a privacidade de uma terapia individual não é importante para elas, mas também acerca de todos nós que vivemos numa complexa sociedade.

 

É um livro acerca do problema de nos mantermos emocionalmente e fisicamente saudáveis numa cultura que tenta desligar os homens dos seus mais profundos sentimentos.

 

No processo de Psicoterapia descrito neste livro não há só um tipo de grito. Há imensos gritos que expressam diferentes sons e diferentes emoções.

 

Há gritos básicos de medo, de sofrimento, de necessidades e direitos e 4 diferentes tipos de gritos de zanga/raiva.

 

Os mais profundos veem acompanhados de fortes sentimentos de prazer.

 

Há também alegres sons de prazer, um prazer de ser libertado das distorções de uma infância mal programada, prazer de tomar consciência de várias escolhas para a emocionalidade adulta e, ainda, um prazer em ter sentimentos de verdadeira ligação com outros seres humanos.

 

O grito não é a única ferramenta empregada neste género de grupo de terapia.

 

Tal como noutras formas de Psicoterapia, falar, especialmente acerca de atitudes mal programadas, faz parte do processo. Embora, no início, a ênfase está nos gritos, pois os gritos podem expressar ou descobrir emoções que não podem ser facilmente expressas em palavras.

 

A ênfase está em mostrar sentimentos e não propriamente falar sobre eles.

 

A ideia de expressar sentimentos com gritos não verbais é fundamental para o processo.

 

Os recém-chegados ao grupo serão surpreendidos ao ouvirem gritos de “estou zangado”, “estou com medo”, “sou uma mulher” e assim por diante.

 

Muitas vezes as palavras acabam em sons que são gritos ou lamentos, sons além de palavras, surgindo de sofrimentos profundos, raiva, medo ou da necessidade de amor. Esses sons podem assustar os recém-chegados desinformados ou fazer com que desista do processo por achar inútil ou perigoso.

 

Mas os gritos são parte de um processo estruturado. Há razões para os gritos, para as palavras, para exercícios emocionais particulares.

 

Qualquer pessoa aberta para as suas próprias emoções irá ressoar alguns desses sons.

 

No Instituto Casriel, onde esta forma de terapia foi desenvolvida, concentram-se na expressão de sentimentos.

 

Os gritos permitem a libertação de emoções reprimidas desde a infância e a liberdade de soltar pode produzir mudanças positivas na personalidade. Isto só pode ser feito num ambiente que inspire confiança, onde a pessoa esteja envolvida num processo contínuo de Psicoterapia.

 

Casriel diz que a sua abordagem para tratar pessoas que não estão bem emocionalmente não resultou completamente da sua experiência pessoal ou insight. Começou sim com a sua experiência como Psicanalista quando ele viu pacientes que tinham perdido o contacto com as suas mais profundas emoções e andavam a “jogar” jogos de palavras com ele.

 

A sua insatisfação com a terapia individual foi nutrida com discussões com colegas que tinham experimentado os mesmos padrões frustrantes com os seus pacientes.

 

Isto foi ainda pior no seu trabalho com adição às drogas, onde há Perturbações de Carácter (Perturbações de Personalidade?) que pareciam impermeáveis ao tratamento. 

 

Casriel pergunta-se porque as Perturbações de Carácter (DN: Também podemos chamar-lhes perturbações de personalidade “Character disordered persons”) são tão difíceis de serem tratadas com sucesso!

 

Ele explica que a literatura Psiquiátrica nunca foi muito precisa acerca deste assunto. A classificação Perturbação de Carácter acabou por ser conotada como uma forma de se dizer – Intratável.

 

O próprio termo (Perturbação de Carácter) tem infelizes conotações que sugerem falhas na personalidade da própria pessoa.

 

Em termos de senso comum essas falhas estão dentro daquilo que Casriel chama de 2 “Rs” - responsabilidade e Relação. As pessoas com Perturbação de Carácter foram emocionalmente lesadas na infância através de privação. As suas necessidades emocionais e por vezes também físicas não foram preenchidas por pessoas significativas nas suas vidas. Portanto, as pessoas com Perturbação de Carácter tornam-se desligadas das suas emoções mais profundas.

 

A Psicanálise invariavelmente não tem sucesso nestes casos. Principalmente por causa da Transferência (processo no qual uma análise eficaz depende), que, nestes casos não tem lugar. A Transferência acontece quando a pessoa que está a ser analisada começa a relacionar-se emocionalmente com o analista da forma como o fez com as pessoas significativas aquando da sua tenra idade.

 

Para Casriel as pessoas com Perturbações de Carácter têm o seu medo, sofrimento e raiva encapsuladas dentro da sua personalidade. Os sintomas são parte das suas personalidades. Eles não causam um sofrimento intenso, mas aliviam o stress emocional que se acumula dentro delas.

 

Casriel explica que as pessoas com Perturbações de Carácter podem drogar-se, beber excessivamente ou serem sexualmente promíscuos. No entanto, muitos homens de negócios a trabalharem 15 horas por dia também têm Perturbações de Carácter.

 

Outros exemplos são: compulsão para as limpezas, para a leitura, condutores imprudentes, comedores compulsivos, pessoas infelizes no casamento. O denominador comum é terem as emoções básicas anestesiadas e os sentimentos encapsulados por detrás de uma concha muito difícil de penetrar nas situações de Psicoterapia tradicional.

 

Por outro lado, os Neuróticos sofrem de sintomas que são estranhos ao ego. Os sintomas são alheios para esta personalidade e causam considerável sofrimento, no entanto é mais provável o Neurótico conseguir pedir ajuda. Nesta personalidade é comum fazerem perguntas como “porque tenho tanto medo?” ou “porque me sinto tão sozinho o tempo todo?”. Os neuróticos sentem o seu medo, o seu sofrimento, a sua raiva. Eles podem ter problemas em expressar, especialmente de forma saudável, contudo conseguem expressar.

 

A maioria das pessoas tem uma combinação de problemas neuróticos e de Perturbação emocional, mas na maioria da sua prática clínica, Casriel encontrou Perturbações/Desordens de Carácter. Ele tomou consciência de que as técnicas que usava no grupo de terapia eram eficazes para romper rapidamente com as defesas das pessoas com Perturbação de Carácter e que as levava a ter contacto com sentimentos reprimidos.

 

Com isto, Casriel não está a querer dizer que há uma cura instantânea, o que ele quer dizer é que o encapsulamento das emoções que impedia o tratamento psicoterapêutico havia sido quebrado e como resultado o contacto emocional com a pessoa poderia ser feito numa base completamente nova.

 

A abordagem terapêutica de Casriel teve origem numa visita que ele fez em 1962 a uma comunidade terapêutica de reabilitação de adição a drogas. Nessa comunidade, onde só havia Desordens de Carácter, os Psiquiatras e Psicólogos consideravam que esses pacientes eram incuráveis. No entanto, Casriel com as suas técnicas terapêuticas vivenciou situações de elevada emoção no grupo.

 

Mais tarde, em Nova York, ele exerceu Psiquiatria e teve a oportunidade de ver grupos de encontro a funcionar por um longo período. Pouco depois introduziu a terapia de grupo na sua prática privada em Manhattan.

 

Desde 1962 até agora a abordagem terapêutica de Casriel, envolve a combinação de verbalizações com técnicas de grito orientado, minimizando as palavras e dando foco à expressão das emoções básicas.

 

O processo de grupo de Casriel é baseado no conhecimento de que as emoções são comuns a toda a humanidade. As emoções não conhecem diferenças de idade, distinções sociais, diferenciações de inteligência. Não importa o quanto tenhamos sido treinados para reprimir a consciência das emoções, elas são criadas por estímulo.

 

Conscientemente ou inconscientemente os nossos sentimentos mais profundos afetam as nossas vidas. As pessoas esforçam-se muito por reprimir certos sentimentos, mas os nossos sentimentos básicos de medo, zanga, sofrimento, amor, e prazer são notavelmente semelhantes aos das pessoas em geral.

 

O que cada pessoa aprendeu do que fazer com cada um destes sentimentos é que causa o problema de alheamento e ansiedade tão amplamente predominante na nossa cultura. Quando comparamos adultos em qualquer sociedade complexa, eles obviamente são diferentes na inteligência, capacidades físicas, na educação, atrativos físicos, mas na emocionalidade são todos iguais.

 

A emocionalidade também está correlacionada com o condicionamento. As crianças que têm mães bem desenvolvidas emocionalmente ficam mais capazes de expressar suas emoções intensamente.

 

Numa situação de grupo, um elemento com um doutoramento e um outro elemento que foi abandonado e com pouca escolaridade podem criar vínculo através da empatia pelo sofrimento de cada um deles, e a necessidade de amor. Uma mulher de 50 anos e uma miúda de 15 anos podem partilhar a mesma zanga pelas suas mães.

 

No grupo de Casriel o foco está na interação dos pares. Com prática, mesmo os mais envergonhados e introvertidos conseguem expandir o seu alcance emocional. Através da reeducação das suas em